Enquanto a cidade continuava cinza e abafada, com os carros, as pessoas e suas fumaças causando vultos apressados, resolvi analisar-los… Eu estava esperando algo, alguém. Parei de esperar, e depois de ver os cantos de bocas desconhecidas esboçarem sorrisos tortos, de colher com cuidado pedacinhos de conversas alheias e de reparar cada particularidade disfarçada percebi que o conjunto é normal, mas as particularidades essenciais que enchem as normalidades do dia são fascinantes. Hoje eu senti cheiro de café com amora, vi a saia longa da mulher que atravessava o rua balançar no ritmo de seus passos, vi um senhor lendo jornal e conversando com um mendigo, vi uma criança comendo maça do amor… O cinza que enche os olhos das pessoas apressadas é cheio de cores vibrantes, alegres, mas são poucas as pessoas que param de fabricar vultos e fumaças para reparar.
Suspiros indecifráveis, batidas rápidas no peito, olhares misteriosos, contradições adoráveis. Ela queria poder entender as tantas definições, queria sentir. Sentir na pele essa magia estranha de que tanto falavam. Mas não, ela se negava, se infiltrava em em seu mundo avulso, com medo. Medo das pessoas.
…Até quando?
Como posso fugir de mim se meu único esconderijo é justamente do que tento me esconder? Sei que pela minha curiosidade insistente em me entender eu arrastaria os pés em cantos secretos que eu mesma escolhi esconder, e assim as teias do esquecimento iam se esvair, e deixar a vista o que há tanto tempo sei que perdi, fiz se perder. E, caso eu redescubra pela memória o que tento reaprender de outra maneira, não terei mais motivos sãos para continuar tentando…
Mas, já que as minhas atitudes são providas de insanidades, vou ignorar essa lógica. Então fujo de mim em mim, por que assim me encontro e me perco.
E continuarei assim, nessa curiosidade sobre quem sou, mas sendo.

E, na pausa de palavras, ela lhe disse com os olhos:
- Ah, como seria bom se pudesse escutar o que diz o meu silêncio…
Ela se preservava demais das coisas mundanas essenciais, mesmo sabendo que a imortalidade nunca faria parte de suas qualidades, ou defeitos.
A monotonia da vida não vivida a fez se preservar de si. E essa perseverança em se preservar causou uma certa contradição nas linhas imaginárias do tempo. Perguntas contraditórias que não preenchiam com respostas as tais linhas imaginárias.
Pelo vazio das respostas e a insistência das perguntas o buraco negro a sugou, levando até mesmo linhas, perguntas e pessoas imaginárias que viviam dentro dela. E então ela continuou, continuou na onde nunca esteve. A realidade de quem pensa que existe não é a certeza de quem faz da vida um motivo para viver.

Por tudo que vivemos, pela embriaguez de sorrisos, pela igualdade de nossas diferenças, pelos abraços sinceros, pelas conversas, pelos olhares, e por tudo que ainda viveremos: Que seja eterno.